Triste Sonolência

By André 'Sidius' Osna
Existe algo de errado. Ao sentir a habitual sensação
de perda de tempo e espaço me remexo em sujos lençóis
com minhas duvidas gangrenadas a pulsar.
O ar se enche do cheiro agridoce, agora libertado
pela fina e quase impotente brisa, da tristeza presa
por debaixo da carne que cobre o osso. O osso exige sair.
Carne e alma fundidos em um só pensamento são debatem-se
contra tal sensação. Tempo e espaço, afinal, devem ser cumprimentados
como se cumprimenta velhos amigos que
aparecem no meio do seu momento de sono.
"Entrem e acomodem-se, em breve estarei com vocês" -
diz você em sua triste sonolência.
Cumprimente-os ou sua boa cama, aquela onde comete teus vis atos,
poderá queimar como queima
esta insistente tosse em tua garganta, em teu pulmão.
Em algum ponto da extensão entre meu já dolorido pulmão e minha alma,
eu a sinto, como podem não ver? Algo de podre num reino
já tomado por podridão, diria o bom louco.
Algo de muito errado em algum ponto entre o pulmão e a alma,
entre a carne e osso revoltoso.
Algo inabitualmente errado.
Algo além da sensação de perda de tempo e espaço,
bons velhos amigos que aparecem em meio ao sono.
 

Ascenção e Queda

By André 'Sidius' Osna
Usando o dinheiro do aluguel para pagar pela comida. Dinheiro do aluguel que ele já não possuia por sua vez. Cada segundo se arrastando com o peso de uma chance perdida enquando o Sol lentamente atravessava a sala agora vazia pela fresta da cortina blackout a muito rachada.
Por onde começar? Começar pelo começo já foi feito e re-feito por isto, como toda boa repetição será feito de novo e de novo. Mas não agora. Lá estava ele sentado de pernas cruzadas como os indios nos antigos westers spaggheti que assistia quando criança. Sua percepção, alterada pela falta quase total de comida ou água e a perda de sangue, fazia-o ver o raio de Sol como uma linha continua desde seu início as três e meia. Agora, cinco horas, a linha seguia seu caminho até a parede contrária a janela. Antes amarelo ouro. Agora vermelho de uma pureza extraordinária.
Seu corpo pende levemente para o lado esquerdo, o lado ferido por um tiro de baixo calibro logo acima do cotovelo. Quase inutilizando. Ascenção e queda. Sua mente lampeja em lentidão e rapidez. Simultaneos. Aos poucos ele revê o que ocorrera dos sucrilhos excessivamente açucarados até aquele momento. Dor seguida de completo entorpecimento. Silêncio completo arranhado pelo terrível som do raio de Sol que, mudo como os anjos, agora quase alcançava o centro da parede. Sol poente. Seis e meia, talvez sete horas.
O que? - pensa ele febril. Como? - e por último, mas definitivamente o mais importante - Porque? - e morria. Apenas morria. Sem Horacio para confortalo. Sem Fortimbras para prever vitória. Apenas morria e, sim, o resto era apenas silêncio.
 

Celebração

By André 'Sidius' Osna
A última folha caiu da árvore morta. Com um tique taque metálico o último
traço de minutos do relógio é ultrapassado magistralmente pelos ponteiros
intrépidos em seu caminho para o inicio do começo do fim.
Com o tique e o taque.
Caminho entre o mar de rostos em pó branco enquanto o motorista do carro
fúnebre toca uma alegre canção em seu acordeom de pele e sonhos.
O vento levanta meus cabelos que serpenteando se confundem com os dragões de
fogo que iluminam a comemoração na qual ninguém é grande demais para ser insignificante.
Dançando entre céus e infernos, as chamas seduzem a maré crescente de pessoas
que com urros de aprovação iniciam o simbólico ritual do canibalismo de virtudes.
Por todos os lados, seres de mil olhos contemplam sonhadoramente aqueles
que podem ter seus próprios pensamentos malignos.
Perdidos em fantasias vertiginosas eles mergulham na lagoa vermelha
até que num momento quase erótico o pensador maquiavélico afasta enojado
o agora extasiado ser de mil olhos que, embaraçado, corre até a
janela mais próxima e se joga clamando por suas voluptuosas três mães até que o chão lhe cale para sempre.
Por que a pressa? A comemoração seguirá por dias a fio, centenas de
almas penadas ainda passaram por essas aveludadas salas onde o que há de mais errado é tomado como lei natural dos deuses.
Os mais envergonhados envoltos em seus longos casacos grossos logo se descobrem absortos na violência bestial da degradação moral, devoram sem piedade o coração do último dos inocentes que gargalha aos berros
"Hei de me vingar, cão do inferno! Tua vida e teu espelho se encontram nos últimos dias da revolução nas ruas!".
Entra, enquanto os peixes voadores cantarem sempre hei de haver defunto a dançar.
Entra, a festa só termina quando admitires o erro de existir, quando sentires o apertão da tua tripa que se enrola.
Entra, a festa só termina ao nascer do último dos Sóis e a morte da última das Luas.
 

3 - O Homem Caminha e sua Sombra o Persegue

By André 'Sidius' Osna
Em sua capa negra como o céus sem Lua ele caminha.
O assassino. O que vive como a morte.
O rosto de um padre.
As mãos de um pecador.
De sua boca a fumaça sobe como serpente hipnotizada. Mil aromas clamam aos céus e libertam-se da prisão que era o pulmão humano. Sobe e se perde em direção ao firmamento enquanto deus exclama por mais sacrificios.
(Que fará agora, homem?)
A sua volta dançam casais como que em ritual pagão. Mãos entrelaçadas, quadris colados e bocas que respiram o mesmo ar.
Bocas que respiram fim.
Exalam começo. Berço, maternidade, inicio, luz, vida.
(Em fim, morte. Fim? Começo.)
Caminha como um gato, calcula seus paços como a bailarina mais dedicada de toda a Russia.
Confia como um deus, conquista como um demonio.
Exala fim.
Em suas mãos flores mortas como a noite a cima de sua cabeça.
Os casais nada veem. Nada sabem. Aos que vivem em amor a vida é apenas mero detalhe efemero. Mãos entrelaçadas. Mãos erradas.
Exala fim.
O vento açoita rostos, balança berços, arranca impiedoso as pétalas da rosa murcha. Suspiro vão.
Quem vê o homem passar?
Vê?
Vê aquele que gentilmente te afagou por mil anos e dois copos de cachaça passando?
Ele não te vê,
(nada vê)
seu destino é certo e seus paços calculados,
(Chora a bailarina, afoga o gato)
e eis que chega.
A prostituta ri.
Chora o homem.
Chora a bailarina.
Mia o gato.
Gargalha a noite.
Vive o assassino.
 

Guia para o Perdido - 2 - Horizonte (Quão Longe?)

By André 'Sidius' Osna
Como saber que se está perdido?
Quando se perde completamente a noção e a admiração, a vergonha
e a virtude, eis então que o horizonta se aproxima de você.
Lenta e vergonhosamente, a linha do fim do mundo caminha em passos de gueicha na direção daquele que com o fio da navalha pretende desencontrá-lo.
Como saber que me perdi?
Como saber que te perdi?
Um milhão de décadas dentro de um grão de areia eu vi e ouvi, cantei e chorei enquanto o bebado capitão a tudo destruia com suas prostitutas de além mar.
Oh, daonde vim.
Oh, quanto tempo passou e aqueles que eu amei
(Ainda vivem?)
Correndo pelos campos de além mar.
(Além mar, além vida)
Todos morrem nos oceanos do tempo em que eu naveguei.
Sangue, horror e o fim espalhei.
Vê?
Vê o que te fiz enquanto carinhosamente tentei te afagar?
Pele sem carne não vive. Carne sem ossos não pulsa.
Bate o coração da fera. Vive o assassino.
Vive por viver como se não tivesse mais nada melhor pra fazer.
Como se a programação dos teatros não mais o atraissem.
Como se as prostitutas não mais o aquesessem.
Como se matar por matar não fosse o próprio fim de quem o faz.
Vive por viver.
Vive como vive que já morreu.
Vaga pelas ruas o homem sem alma.
Um brinde a ele.
O horizonte se aproxima.
 

Guia para o Perdido - 1 - óde ao Fim (no Começo)

By André 'Sidius' Osna

Olhem todos para o horizonte.
Em labaredas douradas deus morre pela útima vez.
Vendado e chorando sufoquei os anjos com um travesseiro de seda.
Plumas de ganso me misturavam dançantes com as asas
daqueles que um dia beijaram a face de seu criador.
Vermes aturdidos se contorssem num caminho de
lamentações pelas cobertas até a cama
fria onde durmo como se fingisse ser inocente.
Por mil anos caminhei entre vos, o assassino em
pele de lobo em pele de carneiro.
Mata-me e salva os pobres carneiros que agora pastam sonhadores entre as colinas do fim do mundo.
Mata-me ou os mato.
Mata-me ou terá em sua conciencia a morte deles.
A morte do outro que por minhas mãos encontra o fim.
Mata-me ou me mato.
Não vi deus descendo em busca da alma de seus adoradores.
Serão os vermes que os levarão até seu temível criador?
Nada, apenas morrem. Apenas morro.
Agora eu e tu, complices do fim do mundo.
Cumplices pesarosos do que fizemos e do que faremos adiante.
A noite é longa e o sol se foi.
Como se em ritual nós o devoramos.
Não finja remorso, cão.
Cães não merecem sua tristesa.
Cães não sonham.
Cala-te, cão.
Mata-me ou te mato.
Mata-me ou verá o dia em que de um em um teu império caiu.
Dançando alegremente comemoramos o fim do dia.
Caiu o império.
Vive o assassino.


Texto e arte por mim.
Roube e morra.
 

Entram os Palhaços.

By André 'Sidius' Osna

Bom, certo. Digamos apenas que eu senti a repentina necessidade de mais um, como diria uma amiga, pedacinho de sustento para o meu ego, mais uma coluna para sustentar a maravilha gigantesca e revoltada que é a minha auto-estima. E por que não acrescentar algumas utilidades extras, matar alguns outros coelhos? Canalizar minha autocomiseração, minha raiva, meu desprezo, minha felicidade, minha viajem... Tudo. Afinal, porque não a porra de um blog (eu posso falar palavrão aqui? Não conheço bem as regras)

E cá estou.

Mais um dos meus não tão famosos, porém consideravelmente apreciados espacinhos virtuais para descer a lenha e jogar merda no ventilador com a desculpa de revisar e criticar obras, filmes, pessoas e a minha vidinha medíocre. (Lembram a parte da autocomiseração?)

Entrem os fucking palhaços, porque o circo chegou.